sexta-feira, junho 16, 2006

Confissão

Não amei bastante meu semelhante,

não catei o verme nem curei a sarna.

Só proferi algumas palavras,melodiosas, tarde, ao voltar da festa. Dei sem dar e beijei sem beijo.

(Cego é talvez quem esconde os olhos embaixo do catre.)

E na meia-luz tesouros fanam-se, os mais excelentes. Do que restou, como compor um homem

e tudo que ele implica de suave,de concordâncias vegetais,

murmúrios de riso, entrega, amor e piedade? Não amei bastante sequer a mim mesmo,contudo próximo.

Não amei ninguém.

Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido

–que se esfacelou na asa do avião.

Carlos Drummond

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